A guerra nossa de cada dia, por Marcus Gusmão

“Quando menino ouvia como explicação para o miserê do Brasil o fato de nunca termos entrado numa guerra pra valer. Pois o Exército Brasileiro em Salvador está quase me convencendo que esta tese esdrúxula tem lá seu fundo de verdade. Eu não desejo a guerra, mas a sua ausência por longos anos parece ter afetado o senso de realidade dos nossos militares.

Explico. Entre minha casa e a escola de meu filho há uma instalação militar que me obriga a dar uma senhora volta. E ao dar esta volta a pé ontem e hoje descubro que mesmo abrigando uma escola de administração, eles não se interessam sequer em administrar pequenos problemas que estejam a  um milímetro fora dos seus muros.

Ontem tive que seguir por um caminho de rato que funciona como passeio ao lado da Vila Militar da Pituba e hoje não pude passar a pé porque a água de uma breve chuva tomou toda a rua da portaria principal da Escola de Administração do Exército, problema que acontece ali há anos,  sempre que chove.

Aí você me diz, com razão, que isto é tarefa da prefeitura. Como também é tarefa do Estado zelar pela segurança pública dos baianos. Os militares dali são federais, estão a treinar para uma grande guerra além fronteiras  e não podem responder por furtos e assaltos chinfrins a mão armada no seu entorno. Isso é problema civil.

Mas sou obrigado a escutar  diariamente cornetas, tambores, trote sincronizado da tropa e seus gritos de guerra. As cerimônias também são muitas. Cerimônia parece ser um item bélico de primeira necessidade. Nestas sim, funciona a parceria com a prefeitura, a mesma que falta para construir um reles passeio ou consertar a rede fluvial. A SET sinaliza as ruas do entorno e coloca viaturas para evitar transtornos e garantir a tranqüilidade aos militares nos muitos dias de gala.

Não entendo muito de guerra, mas deve haver algum sentido bélico no aprendizado dos soldados em capinar a área interna da vila como os vi ontem, enquanto seguia com meu filho pelo caminho de rato tomado pelo mato, do lado externo do muro do condomínio, o único no bairro que não é incomodado pela guerra urbana do nosso cotidiano incivil.

Atualizado em 22 de agosto de 2010. Acordo novamente às 8 deste domingão com a cantoria, depois de ter ido dormir às 2. Pelo menos a rede fluvial está em obras. Mas eles continuam tratando a vizinhança como território  inimigo.” – Marcus Gusmão.

Caminho de rato
                                      Caminho de rato

 

Comentário Movimento Passeio Livre:

Caros colaboradores, acreditem o texto foi produzido em 2009, mas o problema continua. Situações como essa não são somente vividas por ele e pelo seu filho. Os que andam pela cidade se sentem muitas vezes como refugiados de guerra acuados no pouco que nos ofertam de segurança e qualidade que existe nas calçadas de Salvador. É dever nosso e seu fortalecer esse movimento e muitos outros que existem na nossa cidade, para que o desejo de andarmos livres se fortaleça e vivamos em dias de paz.

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